quinta-feira, 26 de julho de 2012

Extremamente Alto & Incrivelmente Perto

Precisamos de bolsos muito maiores, pensei ao deitar na cama, contando os sete minutos que uma pessoa leva em média para dormir. Precisamos de bolsos gigantescos, bolsos grandes o suficiente para nossas famílias, nossos amigos e até mesmo as pessoas que não estão em nossa lista, pessoas que nunca conhecemos mas ainda sim desejamos proteger. Precisamos de bolsos para distritos e cidades, um bolso que pudesse conter o universo.
Oito minutos e trinta e dois segundos…
Mas eu sabia que não podia haver bolsos tão gigantescos. No fim, todo mundo perde todo mundo. Nenhuma invenção poderia evitar isso, portanto me senti, naquela noite, como a tartaruga que tinha sobre si o resto do universo.
Vinte e um minutos e onze segundos…

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Há quem fale em séculos, eu só penso no minuto que passa .

A gente passa a vida inteira se perguntando quem somos, e ignorando o fato de que podemos ser qualquer coisa que quisermos. O desejo de escolha por ser algo, é atribuído ao nosso corpo desde quando choramos pela primeira vez, desde que soltamos ao mundo nosso grito de chegada, e passamos os retos dos dias procurando novas maneiras de se fazer isso. De gritar e avisar o quanto vivemos e queremos um lugar. Lugar esse que se encontra totalmente inserido em nós. Embora, possivelmente poucas pessoas sejam capazes de notar tal estabelicento, o restante luta todos os minutos por outros lugares. Na vida de alguém, em um campo ocupacional, em uma fileira de cinema. Deixamos nos dominar pelo auto conhecimento que se estabelece através de coordenadas de onde nos encontramos. Estou aqui, por isso, sou o que sou. Não. A realidade esta tão perto. Se encontra tão ao nosso alcance. Toquemos nossas mão e somos capazes de sentir nossa real moradia. Nosso desejo de ser o que somos independente de onde estamos. Somos aquilo que nossas atitudes frequentes nos mostram. Somos aquilo que sentimos, aquilo que amamos. Somos tudo que somos capaz de sonhar em ser.
Toquemos novamente nossas mãos, para sentirmos toda a capacidade de escolha do ser.
Nosso lugar.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

não passa



 Não era a primeira vez. Também não era a segunda. Talvez a terceira, não sei ao certo... Fui avisada que a cada vez seria diferente, que seria como se fosse a primeira, que voltaria ao começo, mas isso não fez com que eu estivesse mais preparada. Não importa quantos fins nós enfrentamos, esse não é o tipo de coisa que se acostuma, que fica fácil de se fazer. Não é o tipo de coisa que nos preparamos. A gente nunca acha que será preciso virar fim. Viramos tanta coisa em vez disso, viramos textos, poesia, bares e livros. Viramos dor para não virar fim. Mas até a dor se cansa de nos visitar, até olheiras cansam de serem expostas e o bares são limitados. Ai começa tudo de novo. Choramos, agarramos nossas pernas, ficamos todos encolhidos para recordarmos que não é a primeira vez. O maior consolo vem do nosso próprio abraçado, os melhores conselhos vem do nosso passado, nossas decisões vem com o tempo disso tudo. A gente não cansa de lutar, não cansa de receber socos no estomago, nem de querer ir em frente, mesmo deixando partes de nós mesmo pelo caminho. Não é cansaço, pelo contrario, é força. É força para lembrar que das outras vezes a gente prometeu que merecíamos coisa melhor. E tivemos. Por um tempo. Nada que é muito bom por pouco tempo é bom o suficiente.O melhor dura, se faz durar. Se faz presente, se faz único. Não adianta ser inteiro em certos momentos e metade nos momentos errados. Tem que fazer valer. Saímos da ilusão de que esqueceremos no dia seguinte, e do sofrimento pelo fato que não será assim. Nós nos conformamos. Sabemos que ainda haverão choros, músicas com carga máxima de lembranças, e saudade. Vai vim angustia nas noites do final de semana, vão haver borboletas no estomago quando o celular e campainha tocar, vai haver morte de todas elas ao percebermos que quem seguiu em frente não foi apenas nós. Mas ai a gente lembra que passou. Alguns demoraram mais que outros, mas passou, sempre passa. Mas só passa quando a gente aceita isso, quando permitimos que passe. Não passa se acharmos que saindo de mini saia ela ficara com ciume, não passa se tivermos esperança de esbarrarmos com ela pelas ruas, não passa quando ainda tem depois. Tentando lembrar de quais livros li das outras vezes, de quantas vezes sai por semana, ou se preferiria ficar em casa, se lembrar das coisas ruins tornavam mais fácil ou apenas mais dolorido. Mas não adianta, é sempre como se fosse a primeira vez. De novo é apenas comigo. Seguir os conselhos que tanto dei pelas rodas de amigos. Seguir meus conselhos. Meus passos. Não, não fica fácil de fazer depois das primeiras vezes. Fica fácil de acreditar que da para ser feito. Passou das outras vezes. Tão difícil quanto, mas passou. Deve passar dessa vez também.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Fraturas, dias frios e solstícios


Tudo pode ser facilmente comparado a um acidente grave que causou uma fratura.
Logo após o acidente, você é levada a férias na Patagônia, no inverno, sem consulta prévia. Fica lá por semanas, perdida, sem motivos para querer aquecer-se e sair. Quase morre de hipotermia. Nem é preciso descrever a dor excruciante que tudo isso causa na fratura. Depois de um certo tempo até consegue sair de lá, ir para uma cidade com clima temperado, onde as noites são um pouco frias demais, solitárias, e a fratura incomoda um pouco. Com o decorrer do tempo se acostuma, junta dinheiro, muda-se para outra mais quente e sem períodos de frio. Ela não lhe incomoda mais.
Você encontra atividades que sempre te deixem aquecida, fazendo assim com que esqueça que a fratura existe. Só que, quando menos espera vem um solstício de inverno, e a noite mais longa do ano é também a mais fria e dolorosa. Você não encontra paz, apenas dor. A fratura, que parecia curada, incomoda e muito. Não apenas ela, mas a marca que o tempo deixou em sua pele. A marca é o que mais incomoda, não a fratura em si. Ela já está curada, não é mesmo? Mas todos sabemos que quando você quebra um osso, mesmo logo após muito tempo, em dias frios ela sempre vai te incomodar, aquele osso sempre vai doer. Vez em quando você será levada a uma cidade fria, por algumas horas talvez, não mais dias inteiros. Solstícios ocorrerão duas vezes ao ano, o que mais te incomodará acontecerá apenas uma vez. Depois você aprende a burlar a noite mais longa e fria do ano, aprende a se agasalhar e ficar bem. Analgésicos e cobertores serão seus melhores amigos. A marca talvez não te incomode mais.

Porque o pior de tudo não é o acidente, mas sim a marca que ele deixou em você.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Tenho escrito menos...

...E vivido um pouco mais. A literatura de meus dias perdeu o caráter de microconto. Virou romance que não mais se capitula em poucos parágrafos. Muitas vezes abandonei em branco o texto, pois olhava, míope, para dentro de mim e nada via senão o nebuloso vulto da ulceração que ainda gritava em vermelho. Precisava encontrar um caminho para a superfície, mas no fundo daquele poço encontrei um par de lentes.
O romance nos desafia a convicção, por vezes tira a paciência, e pode até nos subtrair alguns anos da vida, mas quando é que alguém, por um segundo que fosse, cogitou – a sério – viver sem ele? Nossas aspirações vão, cada vez mais, aproximando-se da realidade; a gente passa a prometer menos, mentir menos, e chega até a achar que, dessa vez, erraremos menos, por julgarmos saber onde escondem-se todas as bombas desse campo minado. Nem preciso lembrar que a única certeza no romance é a de se estar eternamente em apuros, saracoteando as pernas para não se deixar afundar totalmente no obscuro e indecifrável oceano que é a vida daquela pessoa com a qual estamos de mãos dadas.
Em apuros pois é perigoso. É perigoso porque a gente arrisca. E a gente arrisca porque quer. Ninguém nos obriga a viver o amor, mas a gente ama vivê-lo. Ninguém nos obriga a sentir as mesmas dores de novo, mas a gente se quebra em mil pedaços para sentir o prazer na cura. A gente acha que pode viver sem, mas as palavras soluçadas no fim de uma noite ébria evidenciam o que, para todos ao nosso redor, já era óbvio: estamos fodidos.
Em apuros não estou só eu, estamos todos nós, meus caros. Romance é o que se persegue pelas esquinas, que foge à luz dos postes, e ele está bem. Em perigo estamos nós, nesse apuro que reside na nossa urgência em vivê-lo. Vivê-lo, mesmo que torto, inacabado, ferido, precipitado, errado, proibido, ou impossível. Vivê-lo de verdade, com intensidade e sem escudos. Como deve ser, e como inevitavelmente é, quando nosso coração nos dá aquela única e inevitável rasteira que nos faz quicar no chão.

Viver o romance é estar em apuros
.
Estou vivendo, e não quero ser salva.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Faz pose, garçom.

Não sei se é o Kid A rolando no repeat há 5 dias. Não sei se é fruto do ócio repentino de 2 dias inteiros prenchidos por pensamentos que me pareciam pesadas nuvens cor-de-chumbo. Também não sei se é o déficit entre a verdade que as pessoas projetam e o que realmente sou. Eu simplesmente não sei.
Também não sei se é o tempo passando, aos poucos me transformando naquilo que eu sabia que iria me transformar. Eu só não sabia quando aconteceria, nem como me sentiria. Poderia, também, ser aquele sentimento em mim depositado em doses homeopáticas. Pode ser um monte de coisa. E pode ser nada. Pode ser apenas: eu
Alguém aí já se sentiu assim? Sentindo tudo?
Hora de maneirar na cerveja solitária, depois da meia-noite.



{ São 3:50 da manhã e não sei mais se eu quero dormir.}

terça-feira, 12 de junho de 2012

Síndrome

Existe uma estrada sob os meus pés. Ela termina toda vez que chego em casa, tarde da noite. O que vejo após a derradeira parada, é o fim desse chão. Se eu prosseguir em minha caminhada, ignorando quaisquer placas de sinalização e advertências verbais de amigos, sou engolida por esse infinito precipício.
E eu não paro.
A queda, até o momento, não parece ruim, embora eu não negue que me incomoda não saber quando me chocarei com o chão. O ar, utilizei todo ele na tentativa de gritar. Ninguém ouve. Não daqui, onde estou. Eu poderia ficar sentada à borda desse penhasco, observando todos os que, caminhando ao meu lado, decidiram encerrar ali suas jornadas. Desobedeço… sempre. E, uma vez sem ar, resta a mim conferir se me calarei com o impacto ou por apneia. Ansiedade?
E eu não paro.
E quem tentou me seguir ficou pelo caminho, por medo de um ou outro precipício. “O que é que tem ali?”. Antes de me fazer essa pergunta, já me encontro lá.
Alguém me faz parar de olhar essa foto. Alguém nada, TU.
Às vezes acho que me fizeram capaz de sentir demais. E emanar demais o que é sentido, inclusive quando não faz sentido. E isso assusta, afugenta, por chamar atenção demais. Meus pensamentos são como um farol que não consegue se esconder na praia deserta. Ele sempre estará lá, ao alcance dos teus olhos, te impedindo de naufragar em mim. E não há nada capaz de me apagar.
Só queria, por meia-hora que fosse, me ver diluída no horizonte de uma noite qualquer. Uma dessas em que tu vagas por aí sozinha, trocando pernas, balbuciando impropérios ao vento. E ter o que eu sinto invisível aos teus olhos. Por meia-hora que fosse, te fazer me querer sentir na meia-hora seguinte.
Essa intensidade indesejada de sentimentos atribui imenso valor até mesmo ao mais insuspeito dos teus sinais Meus joelhos doem, guria, e é por essas e outras é que me atrai tanto o ensurdecedor silêncio do vento frio me cortando a pele. Pelo menos, enquanto caio, tenho certeza de que não me ouves.

Quase sempre eu penso que deveria parar de agir assim.

E eu não paro. Me para.

Síndrome - {grupo ou agregado de sinais e sintomas de causa desconhecida ou em estudo ou conhecida posteriormente}